terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O método de Billings, o sexo, os tradicionalistas católicos e as feministas – uma abordagem teológica para um problema prático

Ultimamente tenho visto pulular nos meios tradicionalistas um comportamento que julgo perigoso, principalmente porque lida com vidas, com casamentos e com famílias. Refiro-me à cada vez mais propalada teoria esdrúxula de que só pode haver relação sexual entre os cônjuges se for para reproduzir-se, e que qualquer relação fora desse objetivo é “pecado mortal”.  Outro extremismo cujo fim é o de prejudicar a união conjugal vem das feministas, que insistem na tese de que uma mulher “não pode sujeitar o seu corpo ao homem”, e que o “corpo é da mulher e ela faz dele o que bem entender e na hora que quiser”.

Devemos nos lembrar que um dos principais alvos do diabo é justamente esse (destruir as famílias), e nesse intento ele usará de tudo: desde as tentações da carne para a satisfação da luxúria, a rebeldia pura e simples para com a ordem natural das coisas, como também o extremo do puritanismo exacerbado. A resposta cristã para este aparente dilema consiste justamente na sobriedade e no justo uso da razão, livre de qualquer tipo de prejulgamentos ou extremismos.

Antes de mais nada: Deus é o criador do sexo e do matrimônio

Isso é mais do que óbvio, e dispensa qualquer tipo de citação da Bíblia ou dos pais da Igreja, mas nunca é demais recapitular essa verdade que insiste em ser negada ou distorcida tanto pelos puritanos quanto pelos libertinos: Deus (e não o diabo) criou a relação sexual, e o fez com dois propósitos, que é o de manter a espécie humana através da reprodução sexuada como também como forma de manter a união íntima entre os cônjuges. Ambas as funções são tanto complementares como não excludentes: nem sempre uma relação sexual feita entre um casal unido no sacramento do matrimônio vai cumprir o primeiro item (reprodução), mas sempre cumprirá o segundo (a união íntima do casal).

Isso começou numa ordem divina, já no livro do Gênesis, quando Deus diz ao homem:

Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou. Deus os abençoou e lhes disse: ‘Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra’...’Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda’...Por isso um homem deixa o seu pai e a sua mãe, se une à sua esposa, e eles se tornam uma só carne.” (Genesis 1, 27-28; 2, 18 e 2, 24)


Somete esta passagem bíblica inspirada já ajuda a demonstrar isso – não somente Deus cria o matrimônio entre um homem e uma mulher como abençoa essa união conjugal, o amor entre os esposos e delineia as diretrizes básicas de como esse amor pode ser frutífero.

Percebemos então que o sexo – como toda obra de Deus – é bom, do contrário negaríamos aquilo que encontramos também na Sagrada Escritura no livro do Gênesis:

Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom.” (Genesis 1, 31)


Desnecessário, mas importante destacar que o “era muito bom” de Deus incluía também o matrimônio e a relação entre os cônjuges, criados antes da queda do homem e da introdução do pecado no mundo.

O sexo como figura da íntima união entre Jesus e sua Igreja

Essa figura soará um tanto incômoda para os puritanos, mas ela não deixará de ser verdadeira: Deus usa uma relação carnal para comparar a íntima união mística dele com a sua Igreja.

Que me beije com beijos de sua boca! Teus amores são melhores que os vinhos! ... Mais que ao vinho, celebremos teus amores!” (Cântico dos Cânticos 1, 2 e 4)

Despontam figos na figueira, e a vinha florida exala perfume. Levanta-te, minha amada, formosa minha, vem a mim! Pomba minha, que se aninha nos vãos do rochedo, pela fenda dos barrancos...Deixa-me ver tua face, deixa-me ouvir tua voz, pois tua face é formosa e tão doce a tua voz!” (Cântico dos Cânticos, 2, 13-14)

Agarrei-o e não o soltarei, até levá-lo à casa da minha mãe, ao quarto daquela que me concebeu” (Cântico dos Cânticos 3, 4)

Já despi a túnica, e vou vesti-la de novo? Já lavei os pés, e os sujarei de novo? Meu amado põe a mão pela fenda da porta: as entranhas estremecem, minha alma, ouvindo-o, se esvai.” (Cântico dos Cânticos, 5, 3-4)

Coloca-me, como sinete o teu coração, como sinete o teu braço. Pois o amor é forte, é como a morte, o ciúme é inflexível como o Xeol. Suas chamas são chamas de fogo, uma faísca de Yahweh! As águas da torrente jamais poderão apagar o amor, nem os rios afogá-lo.” (Cântico dos Cânticos, 8, 6-7)

Salomão também fala sobre a relação matrimonial nos seus Provérbios, e ele é muito claro ao dizer que,

Mostre-se abençoada a tua fonte de água e alegra-te com a esposa da tua mocidade, gama amável e encantadora cabra-montesa. Inebriem-te os seus próprios seios todo o tempo. Que te extasies constantemente com o seu amor.” (Provébios de Salomão 5, 18-19)



Sim, esses e outros trechos são deveras dificílimos para os puritanos, que se pudessem os arrancariam de suas Bíblias.

Outro detalhe importante a ser destacado nesses tempos conturbados é: todas as referências bíblicas envolvendo relações sexuais de forma positiva são feitas entre um homem e uma mulher, unidos pela relação matrimonial.

O método de Billings e os tradicionalistas

No meio católico existe uma briga entre os chamados tradicionalistas e os modernistas. Alguns (repito: alguns!) dos primeiros têm trazido em diversos blogues e grupos de redes sociais uma visão puritanista do matrimônio, enxergando uma certa proibição das relações conjugais, exceto quando feitas para gerar a prole. Do outro lado, desde o lançamento da encíclica “Humanae Vitae1 do Papa Paulo VI, os católicos não ligados ao ramo tradicional da Igreja têm fomentado junto aos fiéis o uso de um método de controle de natalidade natural desenvolvido por John Billings e sua esposa Evelyn Billings, que consiste basicamente em “uma maneira comportamental e natural para conseguir engravidar, monitorar a saúde reprodutiva e adiar a gravidez, já que se baseia na auto observação e conhecimento dos períodos de fertilidade e infertilidade em cada ciclo menstrual2. Não preciso dizer que tanto a própria Igreja quanto muitos santos – bem como a própria Sagrada Escritura, fonte primária e inspirada por Deus – dizem exatamente o contrário: a relação sexual entre os cônjuges é lícita e desejável, mesmo quando ela não visa única e exclusivamente a reprodução humana. Senão vejamos os posicionamentos deles:

São Paulo, nas Sagradas Escrituras:


A mulher não pode dispor de seu corpo: ele pertence ao seu marido. E da mesma forma o marido não pode dispor do seu corpo: ele pertence à sua esposa. Todavia, considerando o perigo da incontinência, cada um tenha sua mulher, e cada mulher tenha seu marido. Não vos recuseis um ao outro, a não ser de comum acordo, por algum tempo, para vos aplicardes à oração; e depois retornai novamente um para o outro, para que não vos tente Satanás por vossa incontinência.  Isto digo como concessão, não como ordem... Mas, se não podem guardar a continência, casem-se. É melhor casar do que abrasar-se.” (São Paulo aos Coríntios 7, 2; 5-6; 9)

A regra de São Paulo registrada nas Sagradas Escrituras é muito clara: os esposos não podem se negar um ao outro o uso da relação sexual no sagrado matrimonio – exceto se por comum acordo – como devem praticar isto como forma de evitar a tentação de Satanás para que o outro cônjuge não caia em pecado mortal.

Afastando a mentira das feministas

Este texto também afasta a falácia das feministas que tem contaminado tantas mulheres, inclusive no meio cristão: a de que o corpo da mulher é só dela e que ela só o deve doar a quem quiser e na hora que ela bem entender. Isso é verdade quando a mulher é solteira, mas ao casar-se o corpo dela não é mais só dela: o é também do seu esposo, assim como o do seu esposo não é mais só dele, pois é também dela. Como disse Deus no primeiro livro da Sagrada Escritura, ao unir-se no matrimônio já não são mais dois: são uma só carne! Esposos: o vosso corpo não é mais vosso, mas do outro com quem você escolheu dividir sua existência para o resto da vida!


O casamento como figura entre a união de Deus e a sua Igreja

Reforçando a tese de que o livro de Cantares de Salomão retrata uma união carnal para compará-la com a união mística e espiritual entre o Senhor e sua Igreja nós vemos no texto de Efésios 5, 28-33, de autoria de São Paulo, que ainda descreve como deve se dar o papel de cada um dos esposos no arranjo matrimonial:

Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. Porque nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes a alimenta e sustenta, como também o Senhor à igreja; Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos. Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne. Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja. Assim também vós, cada um em particular, ame a sua própria mulher como a si mesmo, e a mulher reverencie o marido.” 

Santo Agostinho de Hipona



Santo Agostinho comenta a carta de São Paulo aos Coríntios da seguinte forma:

"O concúbito é necessário para a procriação, e só neste caso é verdadeiramente nupcial... Em tais circunstâncias [refere-se à libido do outro cônjuge] é dever dos esposos não o exigir, mas condescender com a outra parte, a fim de evitar que se lance a uma fornicação, que é pecado mortal. Ora, se ambos estão dominados pela concupiscência, realizam um ato que não é verdadeiramente nupcial. Entretanto, se na sua união atendem mais à honestidade que à desonestidade, isto é, se atendem mais ao que é próprio das núpcias que ao que lhe é impróprio, isto é o que o Apóstolo [Paulo] lhes concede como indulgência... O uso natural do matrimônio, quando ultrapassa os limites da necessidade da procriação, é escusável com a própria esposa, mas pecaminoso com uma meretriz; o uso antinatural da esposa [isto é, a sodomia] é mais execrável que o uso antinatural com uma meretriz... As leis do Criador e a conveniência das criaturas de tal modo são obrigatórias que os excessos nas coisas permitidas são mais toleráveis, que uma ou raras transgressões nas coisas proibidas. E assim, nos casados, deve ser tolerada a intemperança no uso do que lhes é permitido, para evitar que a libido os arraste ao que lhes é proibido. Por conseguinte, peca menos se recorre frequentemente à esposa, que se raríssimamente se desliza na fornicação" (Santo Agostinho - Dos Bens do Matrimônio – Editora Paulus)

Uma observação importante no ensinamento agostiniano: a sodomia – mesmo quando praticada entre um homem e uma mulher unidos no Sagrado Matrimônio – constitui falha gravíssima, e não está no rol das práticas sexuais aprovadas e abençoadas por Deus.

Pronunciamentos da Igreja anteriores à encíclica “Humanae Vitae”:

Temos de entender que o uso do ritmo natural do ciclo menstrual e da concepção só passou a ser bem conhecido no século XX. Mas a Igreja, em sua sabedoria, já endereçava a questão no fim do século XIX. A prova está nesta pergunta feita por um Bispo francês à Sagrada Penitenciária naquele período:

Alguns casais, se apegando à opinião que aprenderam de alguns médicos, estão convencidos que existem vários dias em cada mês nos quais a concepção não pode ocorrer. Devem aqueles que não usam do matrimônio exceto nesses dias serem incomodados, especialmente se eles não tiverem razões legítimas para se abster do ato conjugal?"3

Em 2 de Março de, 1853, a Sagrada Penitenciária respondeu (durante o reinado de Pio IX):

Esses citados no requerimento não devem ser incomodados, pelo fato de que eles não estão fazendo coisa alguma para impedir a concepção3

Isto indica que quando casais praticavam o chamado "ritmo", eles não realizavam um ato antinatural em si mesmo, segundo induzimos das palavras da Sagrada Penitenciária.

E ainda temos uma outra citação, desta vez no reinado de Leão XIII, quando em em 1880, o padre Le Conte submeteu a seguinte pergunta à Sagrada Penitenciária:

"Se os casais unidos no matrimônio podem ter intercurso sexual durante tais períodos inférteis sem cometerem pecado mortal ou venial? ... Será que o confessor pode sugerir tal prática tanto à esposa que detesta o onanismo do seu marido mas não pode corrigi-lo, ou para a esposa que evita ter muitos filhos?3

A resposta da Sagrada Penitenciária (durante o reinado de Leão XIII), datada de 16 de Junho de 1880, foi:

Casais que contraem o matrimônio e que usam do direito conjugal na dita forma não devem ser incomodados, e o confessor pode sugerir a opinião em questão, contudo, de forma cautelosa, para aquelas pessoas casadas que tentaram em vão outros meios de dissuadir o detestável crime do onanismo.3

Conclusão:

Não restam dúvidas: o método de Billings não é condenável, posto que mesmo com ele a fecundidade não é interrompida por meios artificiais, mas sim naturais, obedecendo o ciclo do corpo instituído por Deus na criação. Além disso, o uso do matrimônio por parte dos esposos - mesmo quando para combater a concupiscência - não somente é legítimo como aconselhável, face ao mundo extremamente erotizado em que vivemos. Fazer isto de forma regular é prova de amor de um cônjuge para com o outro, de forma a evitar que uma das partes caia em tentação pela incontinência e também para manter unido o casal na intimidade.

Por fim, a mentira da ideologia feminista que prega que a mulher é dona do seu próprio corpo e só o deve dispor “para quem, quando e como quiser” não é suportada pelas Sagradas Escrituras após o casamento entre um homem e uma mulher. A verdade é que os corpos de ambos os conjunges pertencem um ao outro, que se doam em amor e fecundidade no arranjo divino.

1 – Íntegra da Carta Encíclica “Humanae Vitae”, do Papa Paulo VI - http://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_25071968_humanae-vitae.html;
2 – Wikipedia – Verbete: Método de Ovulação de Billings https://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A9todo_de_ovula%C3%A7%C3%A3o_Billings
3 – Padre Mark A. Pivarunas – “On the Question of Natural Family Planning” - http://www.cmri.org/03-nfp.html